Eucalipto vs. Mata Atlántica

 

  Desde a década de 60, as terras do Estado de Espírito Santo têm sofrido uma estratégica e comercial invasão de plantacões de eucalipto, árvore exótica original da Austrália, e plantada com o fim de extrair a celulose, matéria-prima fundamental para a fabricacão de papel. 
Os países da Europa não querem plantar eucalipto no continente devido à contaminacão e o espaco que esta demanda. Assim as multinacionais Aracruz Celulose, Bahia Sul Celulose e outras com capitais estrangeiros provenientes dos países industrializados, tendo como  maior acionista a Coroa Inglesa, vem se infiltrando no Estado há quase cinco décadas, comprando estrategicamente as terras de pequenos agricultores, que muitas vezes por serem descendentes de escravos e indígenas nunca escrituraram suas terras e por falta de documentacão se vêem na obrigacão de vender temendo conflitos judiciais.

área verde clara - MATA ATLÂNTICA (original)
área verde escura - MATA ATLÂNTICA (remanescente)
área rosa - SAVANA (cerrado/campos)
área amarela - ESTEPE (caatinga, campanha gaúcha)
área laranja - ÁREAS DE TRANSIÇÃO (contatos entre varios tipos de vegetação)

  Não bastando esta expulsão dos caboclos da terra e o desmatamento aberrante que se faz entre dois tratores e o "correntão", que vão derrubando a Mata nativa e matando os bichos, seja pelo esmagamento seja pela destruicão sistemática do seu habitat, nem mesmo emprego é gerado para estes seres humanos, já que as empresas fazem uso da "tecnologia", usando máquinas ultra-efetivas que fazem cada uma o trabalho equivalente ao que seria feito por 200 homens num dia. O homem só é usado mesmo para a aplicação de agrotóxicos o que tem gerado doença, cegueira e morte em muitos deles, para a queima do eucalipto sobrante para carvão e para dirigir os caminhões que levam os troncos e o carvão.

      


  Para evitar que a Mata Atlântica volte a crescer de tempo em tempo são utilizados poderosos agrotóxicos, além dos que são usados para evitar a formiga e a ferrugem. Todos estes venenos vão ser lavados e levados pela chuva até as nascentes e os rios da Bacía do Rio Itaúnas, completando um ciclo de destruicão e contaminacão do ecossistema regional. Este fenomeno ja está ocorrendo em grandes extensões no sul da Bahia e se providências não forem tomadas, o quadro futuro é aterrador: maiores índices de pobreza e migracão do homem desterrado, maior desmatamento  da Mata Atlântica, extincão da flora e fauna original, contaminação dos rios e nascentes comprometendo a saúde dos que ainda subsistem em pequenos sítios encerrados por imensas plantações de eucalipto. (Quilombos remanescentes e pequenos agricultores constantemente pressionados a vender suas terras por ninharías e privados pelos mesmos organismos de protecão ao meio-ambiente como IBAMA e SEAMA de fazer uso dos recursos naturais de suas terras).

     

  Pela legislacão brasileira, os remanescentes de quilombos têm direito a certas quantidades de terra para sua subsistência e é proibido o uso de agrotóxicos nas margens dos rios e nascentes, ambas leis são violentadas a cada dia por brasileiros à serviço dos capitais estrangeiros para manter a ilusão de prosperidade que o Brasil vende para o mundo, com um PIB em crescimento a cada ano, mas com custos altíssimos de caráter social e ambiental, quadros que levarão muitíssimos anos, consciência e mudancas éticas e comerciais para serem revertidos em prol de um Brasil com um PIB menor mas com uma riqueza de flora, fauna e seres dignos de inestimável valor ambiental e humano.

  As multinacionais em questão têm se visto na obrigacão de apoiar a criação desta reserva ecológica que é Itaúnas, como atenuante para justificar a destruição que seu negócio impõe à região. Dos 3500 hectares que compõem este Parque Estadual, 1500 ainda pertencem formalmente a Aracruz Celulose e às outras companhias. A transferência formal das terras fica sendo adiada e enquanto isso elas fazem um trabalho de lavagem cerebral à população, promovendo concursos de redação nas escolas da região para ver quem fala melhor do eucalipto, com computadores de prêmio para a melhor redacão!  Mesmo a criação do Parque teve um impacto social negativo, já que os moradores originais da região são privados de fazer uso dos recursos naturais do Parque, (lenha, madeira, caça artesanal, etc.) o que se reflete na construcão, outrora de pau-a-pique e hoje de blocos de concreto; na alimentação, no artesanato e no modo geral de vida.

  

  O Parque Estadual de Itaúnas  foi criado através do decreto 4967-E, de 8 de novembro de 1991, como resultado dos esforcos de um grupo de ambientalistas para a conservação de importantes remanescentes da Mata Atlântica do Estado do Espírito Santo. A área por ser de transição é riquíssima em fauna e flora. A equipe do Parque tenta atraves de projetos integrar a comunidade a esta nova situação através de atividades culturais e o resgate das tradições dos antigos moradores da vila de Itaúnas. Este é apenas o começo de um longo processo que deve transformar um quadro desolador que ameaça não só à região mas a vários estados brasileiros: o Deserto Verde.

   

  Vários destes quadros poderiam ser transformados gradativamente sem pretender recuperar toda a Mata Atlântica. As multinacionais devem ser pressionadas para recuar os plantios dos rios e nascentes e dos pequenos sítios aonde subsistem famílias que dependem da terra para gerar o seu sustento. O uso de venenos para impedir a mata original de crescer deve ser substituído pela "capinada humana", o que geraria trabalho na região. Os corredores de Mata Atlântica entre as plantacões devem ser maiores e o campo de eucalipto não deve se expandir mais! As mesmas empresas deveriam financiar a criacão de oficinas coletivas para as vilas e povoados aonde os jovens possam aprender a fazer artesanato e procurar novas saídas comerciais aproveitando o incremeto que o turismo teve na região com a criação do Parque Estadual. Assim como os projetos que procuram resgatar as memórias e as tradicões dos anciãos para legar aos jovens sua cultura.

  É necessário que em países do primeiro mundo haja consciência e pressão sobre os governos para que as multinacionais respeitem os convênios ecológicos. E no Brasil  falta  pressão da população em geral contra a total falta de ética na política e no Estado que facilita este saque do que é nossa terra, nosso lar, nossa história.


Esta nota é um recopilado de opiniões e informações fornecidas por varios habitantes da região, tanto nativos como moradores vindos de varias partes do país. Agradecimetos à geógrafa formada pela USP, Simone Raquel Batista, ao biólogo Anderson Lanusse, Diretor do Parque Estadual, e em fim a todos os que colaboraram para esta nota.

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